Abro agora um espaço para expor uma situação que acontece na maioria das famílias, posto então um textos retirado da revista Pais & Filhos que condiz muito com o assunto sofrido pela maioria dos "filhos".Texto: Ana Vieira de Castro
26 Março 2009
Embora os pais digam sempre que gostam de todos os filhos da mesma maneira, isso nem sempre é inteiramente verdade. Não é por mal, mas há razões que só o coração conhece.
Habituados a partilhar o mesmo espaço, as atenções, as brincadeiras e o amor dos pais desde que nasceram, juntos nos testemunhos das crises e alegrias familiares, dia após dia ao longo dos anos, os irmãos são uma forte corrente na teia complexa de afectos que é a família. A forma como gostam e se relacionam uns com os outros depende da maneira como foram amados, das preferências inconfessadas, cumplicidades ou distâncias vividas com o pai e com a mãe, às vezes mais sentidas do que percebidas.
O que é verdade é que esses primeiros anos da infância e a forma como foram vividos afectivamente têm influência na relação entre irmãos e, ainda, na maneira como cada filho sente o amor dos pais, sentimento esse que pode variar muito dentro da mesma família.
Logo que o primeiro filho deixa de ser único, todo o quadro afectivo se transforma, reorganizando-se de forma a tornar irreconhecível o triângulo inicial – pai, mãe e filho – uma situação, aliás, irrepetível. A chegada de um segundo filho tem a vantagem de vir renovar um prazer iniciado, permitindo voltar a viver as satisfações da paternidade, mas agora de uma forma mais confortável e tranquila. Há muitos pais que optam ainda pela vinda de um terceiro, às vezes de um quarto filho, para não falar dos que não resistem às grandes, mas já raras, proles de seis, sete ou mais crianças.
Para muitos, é um prazer e uma segurança verem-se rodeados de filhos, como se a multiplicação lhes permitisse, de alguma maneira, tomar contacto com o milagre da eternidade.
Cada filho é único nas suas características e a relação que os pais têm com ele depende de factos e circunstâncias que escapam ao controlo da consciência. E que têm a ver com o que existe de mais íntimo e essencial em cada um de nós, muitas vezes escondido no fundo escuro das memórias afectivas.
Embora a relação entre uma criança e os pais comece durante a gravidez, é só depois do nascimento que vai evoluir e definir--se. À medida que o bebé cresce, vão surgindo afinidades e diferenças, psíquicas e físicas, com o pai ou com a mãe, numa infinidade de combinações que irão estar na base de uma forte cumplicidade ou, pelo contrário, de uma dura rejeição.
Toda esta questão, que envolve a aproximação e a rejeição, ou um misto das duas, é um processo inerente à maternidade e à paternidade, em que a identificação e a projecção são mecanismos psíquicos involuntários, comuns e naturais em todas as pessoas. Levam-nos de volta à nossa própria infância, fazendo-nos reviver esse passado através dos nossos próprios filhos. Identificamo-nos com eles e neles projectamos muitas das nossas inseguranças, medos, alegrias, desejos.
O movimento global de identificação com os filhos pode desencadear preferências, num processo quase sempre involuntário, pois obedece a impulsos vindos do fundo de nós mesmos. Isso não significa que não provoquem sentimentos dolorosos nas «vítimas» desta injustiça: os filhos preteridos. Dolorosos e incompreensíveis, na maior parte dos casos. Susceptíveis de serem literalmente arrastados pela vida fora, como espinhos cravados no coração

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